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A figura do monge católico Martinho Lutero é exemplar a esse respeito. Diante da emergência progressiva dos idiomas modernos, Lutero apregoava a necessidade de que o culto fosse celebrado em língua vernácula, a fim de diminuir a distância que se interpunha entre o clero e o povo. Desejoso de que os cristãos de sua pátria tivessem acesso às fontes religiosas da fé, traduziu a Bíblia para o alemão. Nessa mesma perspectiva, proclamou a necessidade de adotar para os clérigos os trajes da sociedade em que viviam e contestou a necessidade do celibato eclesiástico. As diversas denominações protestantes surgidas nesse período, como o luteranisno na Alemanha, o calvinismo na Suíça e o anglicanismo na Inglaterra difundiram-se rapidamente em vista de sua maior capacidade de adaptação aos valores da emergente sociedade burguesa. A profunda vinculação da igreja romana com o poder político, a partir de Constantino, e a progressiva participação da hierarquia eclesiástica na nobreza ao longo da Idade Média fizeram com que os adeptos da fé católica tivessem dificuldades muito grandes para aderir à evolução da sociedade européia. A Igreja Católica reagiu de forma conservadora não só às novas perspectivas culturais, como também às reformas propostas por Lutero. A expressão mais forte dessa reação antiburguesa e antiprotestante foi o Concílio de Trento, realizado em meados do século XVI. Em oposição ao movimento protestante que defendia a adoção da língua vernácula no culto, os padres conciliares decidiram-se pela manutenção do latim. Acentuou-se o poder clerical na estrutura da igreja e o celibato sacerdotal foi reafirmado. Diante da popularização da leitura bíblica promovida por Lutero, a hierarquia católica recomendou a divulgação de catecismos com resumo das verdades da fé. A instituição católica reagiu fortemente contra o avanço da mentalidade humanista, insistindo sobre a necessidade de uma prática ascética. A hierarquia eclesiástica persistiu na vinculação com a antiga nobreza rural e encontrou dificuldade para aceitar os novos valores da burguesia urbana em ascensão. A reação antiburguesa assumiu posições radicais na península ibérica, onde os reis católicos, Fernando e Isabel, implantaram a Inquisição contra os judeus com a finalidade específica de quebrar o poder econômico que eles detinham. O Concílio de Trento trouxe uma significativa revitalização da instituição católica, com o surgimento de novas congregações religiosas, muitas das quais dedicadas a atividades missionárias, educativas e assistenciais. A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, tornou-se o modelo da nova forma de vida religiosa. A arte barroca, por sua vez, tornou-se um instrumento importante de expressão da reforma eclesiástica. A mentalidade conservadora da Igreja Católica perdurou nos séculos seguintes, o que provocou a hostilidade da nova burguesia liberal contra a Companhia de Jesus, expulsa de vários países na segunda metade do século XVIII. A revolução francesa de 1789 assumiu também um caráter nitidamente anticlerical, tendo em vista a aliança da igreja com o poder monárquico do Antigo Regime. Ao longo do século XX, a igreja continuou combatendo as concepções liberais e encontrando dificuldade para assimilar os progressos da ciência. O Concílio Vaticano I, interrompido com a tomada de Roma em 1870, reforçou as posições autoritárias da igreja ao proclamar o dogma da infalibilidade papal. Desde princípios do século XX, o papa Pio X prescreveu a todos os professores de seminários o juramento antimodernista, exigindo fidelidade às concepções teológico-filosóficas elaboradas no século XIII por Tomás de Aquino, fundamentado na cosmovisão grega aristotélica. |
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