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Igreja Católica
A
Romanização do catolicismo 
          A partir do início do segundo reinado, em 1840, surgiu um movimento dirigido pela hierarquia eclesiástica que visava a desvincular a igreja da coroa luso-brasileira e colocá-la sob as ordens diretas da Santa Sé. Esse movimento foi incentivado pelos núncios apostólicos, estabelecidos no Brasil a partir de 1808, como representantes da Cúria Romana. Três fases caracterizam esse novo período da história da igreja no Brasil, conhecido como romanização do catolicismo: a reforma católica, a reorganização eclesiástica e a restauração católica. 
          Reforma católica. Prolongou-se durante todo o segundo reinado o esforço do episcopado por imprimir ao tradicional catolicismo luso-brasileiro as marcas do catolicismo romano. Os prelados que lideravam esse projeto foram designados bispos reformadores, destacando-se entre eles D. Antônio Ferreira Viçoso, de Mariana MG, D. Antônio Joaquim de Melo, de São Paulo, D. Antônio de Macedo Costa, do Pará, e D. Vital de Oliveira, de Olinda e Recife PE. Duas foram as principais preocupações dos bispos: a reforma do clero e a reforma do povo cristão. A primeira pretendia a formação de um clero piedoso e santo, observante do celibato eclesiástico e afastado dos negócios seculares e da participação política; visava também à preparação teológica dos clérigos. Essa formação especificamente doutrinária afastou os clérigos da cultura brasileira e do progresso científico em geral. Multiplicaram-se os seminários menores e maiores, destinados a abrigar desde a meninice os futuros candidatos ao sacerdócio, sob a direção de religiosos vindos da Europa. Foram os padres lazaristas e capuchinhos franceses, bem como os jesuítas alemães e italianos, os que mais se destacaram na atuação junto aos seminários. O resultado foi um clero de conduta rígida e puritana, com bastante conhecimento da doutrina religiosa, mas com pouca sensibilidade para com os problemas socioculturais do povo brasileiro. 
          Quanto ao povo cristão, a preocupação fundamental era afastar os fiéis do catolicismo luso-brasileiro, marcadamente devocional, e orientá-los para a prática do catolicismo romano, com ênfase no aspecto doutrinário e sacramental. A estratégia pastoral do episcopado constituiu em apossar-se dos santuários e centros de devoção popular e entregá-los à direção de institutos religiosos europeus. Proliferavam as missões populares, conhecidas como santas missões, destinadas a inocular a prática sacramental e uma vinculação cada vez maior com a hierarquia eclesiástica. 
          O processo de romanização do catolicismo não se realizou pacificamente. Muitos padres e irmandades leigas tradicionais resistiram ao avanço do poder autoritário da hierarquia, por meio da imprensa ou mediante conflito aberto com o episcopado. No final do século XIX, no entanto, o movimento dos bispos reformadores podia ser considerado vitorioso. 
          Reorganização eclesiástica. A proclamação da república marcou o início de uma nova etapa na vida católica no Brasil, em virtude do decreto de separação entre igreja e poder civil. A partir de então, o catolicismo deixou de ser religião oficial e o estado passou a ser considerado leigo. O clero perdeu o direito de subvenção pelos cofres públicos e a igreja do Brasil reforçou sua dependência em relação à Santa Sé. 
          A fim de fortalecer a instituição clerical, a Cúria Romana desenvolveu atividades em três setores específicos: multiplicação das dioceses, reforma das antigas ordens religiosas e envio de novas congregações para o Brasil. O pequeno número de dioceses brasileiras no período colonial cresceu pouco no império, quando foram criadas mais cinco: Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Ceará e Diamantina MG. Às 12 dioceses existentes no fim do império acrescentaram-se depois muitas outras, fundadas nas primeiras décadas da república. Em 1909, por exemplo, São Paulo tornou-se sede metropolitana, sendo seu território dividido entre cinco outras dioceses. Na escolha dos novos prelados, deu-se preferência àqueles que haviam completado a formação em Roma ou em seminários europeus. Esses bispos caracterizaram-se por uma fidelidade irrestrita à Santa Sé e por uma observância rigorosa das diretrizes da Cúria Romana. 
          Em vista das restrições levantadas pelo governo imperial para a aceitação de noviços a partir de 1855, as antigas ordens religiosas dos franciscanos, carmelitas e beneditinos se encontravam em situação precária. O início da crise datava de fins do século XVIII. A Santa Sé decidiu, por conseguinte, enviar religiosos europeus para que assumissem a direção dos conventos, fortalecendo assim o processo de romanização da igreja no Brasil. A Cúria Romana incentivou também a vinda de inúmeras outras congregações masculinas e femininas destinadas a colaborar com o episcopado na atividade pastoral, bem como atuar na área educacional e assistencial. 
          Tanto nas paróquias como nos estabelecimentos educativos, a atuação dos religiosos europeus foi muito importante. As antigas irmandades e confrarias leigas foram substituídas por novas associações religiosas, controladas diretamente pelos clérigos, como o Apostolado da Oração, a Associação das Filhas de Maria e dos Marianos e a Liga Jesus, Maria e José. As crianças foram chamadas a participar da Cruzada Eucarística. Os religiosos trouxeram também novas devoções: os salesianos promoveram o culto de Nossa Senhora Auxiliadora e de Dom Bosco; os redentoristas, o de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e de são Geraldo; e os jesuítas, o de são Luís. A principal  característica dessas novas devoções era a ênfase na prática da confissão e da comunhão freqüente. Nos internatos católicos estabeleceu-se a missa cotidiana, como estímulo aos alunos para a recepção dos sacramentos. 
          Enquanto a prática do catolicismo luso-brasileiro continuou sendo mantida pelas camadas populares do interior, as classes médias urbanas passaram a adotar cada vez mais o catolicismo romanizado, mais consentâneo com a aspiração de amoldar-se à cultura européia que lhes era familiar. A difusão dos catecismos preparados pelo episcopado deu maior consistência doutrinária ao modelo de expressão religiosa. Por isso, os bispos passaram a referir-se ao tradicional catolicismo luso-brasileiro como manifestações de ignorância, superstição e fanatismo. Desamparados pelo clero e marginalizados socialmente pelo avanço do projeto capitalista em áreas rurais, diversos grupos populares se uniram em movimentos de contestação político-religiosa, como em Juazeiro do Norte, Canudos e na região do Contestado, entre o Paraná e Santa Catarina. Tanto em Canudos como no Contestado, os movimentos foram reprimidos pela força militar, com aprovação tácita da igreja. 
          Restauração católica. A partir de 1922, comemoração do centenário da independência do Brasil, iniciou-se a terceira fase de romanização do catolicismo: a restauração católica. Um dos aspectos mais importantes da primeira fase fora a reação antiliberal e um certo afastamento da igreja da vida política; na segunda fase, a preocupação fundamental da hierarquia católica fora a reorganização e o reforço de suas estruturas internas; a terceira fase, por seu turno, foi marcada pela opção decidida da instituição eclesiástica por uma maior presença na sociedade brasileira. Como condição fundamental para a realização desse objetivo, o episcopado procurou uma reaproximação com o poder político, anteriormente repudiado. Por causa da colaboração dos bispos com as autoridades civis num projeto comum, essa etapa da história católica foi também designada com o nome de neocristandade. 
          A posição da igreja no Brasil encontrava apoio e estímulo na própria Santa Sé, que reatava nessa época a aliança com o estado italiano, consolidada em 1929 com o Tratado de Latrão. No caso brasileiro não houve acordo firmado, mas declarações formais de amizade e colaboração tanto por parte da hierarquia católica como dos chefes políticos. De fato, com a fundação do Partido Comunista e os cada vez mais freqüentes movimentos grevistas dos trabalhadores, que exigiam mudanças sociais, o governo precisava do apoio eclesiástico para garantir a ordem estabelecida. 
          Para levar avante o projeto restaurador, fundou-se no Rio de Janeiro o Centro Dom Vital, sob a direção do jornalista Jackson de Figueiredo, que reunia intelectuais católicos, entre os quais destacaram-se Gustavo Corção e Alceu Amoroso Lima, conhecido sob o pseudônimo literário de Tristão de Ataíde. O Centro Dom Vital tornou-se um baluarte da defesa dos ideais conservadores da igreja no Brasil, com a publicação da revista A Ordem, que propugnava a resistência ao avanço dos movimentos reformistas e sociais no país.  Esse grupo de intelectuais católicos e o clero em geral não escondeu sua simpatia por movimentos de cunho autoritário, como o integralismo no Brasil, o salazarismo em Portugal, o franquismo na Espanha e o fascismo na Itália. Embora sem fundar um partido católico como desejavam alguns, o cardeal Leme organizou a Liga Eleitoral Católica, que vetava candidatos a cargos públicos que não afinassem com a orientação política e moral da igreja. 
          Na Constituinte de 1934, os católicos conseguiram vitórias significativas: o novo texto constitucional foi promulgado em nome de Deus, reconhecia o direito do ensino religioso nas escolas públicas e vetava o projeto de divórcio. O exército brasileiro passou a ter capelães militares e o governo foi autorizado a subvencionar as obras assistenciais e educativas dirigidas pelos religiosos. 
          Durante o Estado Novo, a igreja continuou a conviver pacificamente com o regime autoritário. Uma das manifestações mais expressivas do novo papel da Igreja Católica na sociedade brasileira foram os congressos eucarísticos nacionais, celebrados nos principais centros urbanos e congregando multidões, com participação das autoridades civis e militares ao lado dos membros da hierarquia eclesiástica. A fé católica afirmava-se como a religião da nação brasileira. 
          Com o fim da segunda guerra mundial, porém, as idéias liberais e democráticas passaram a ganhar cada vez mais espaço na opinião pública mundial e na própria sociedade brasileira. Também dentro da igreja surgiram grupos e movimentos que provocaram uma mudança de rumo no projeto eclesiástico. Pouco a pouco, foi abandonado o sonho da neocristandade e a instituição eclesiástica abriu-se para as idéias liberais e democráticas e para os projetos de mudança social. O golpe militar de 1964 contribuiu de maneira decisiva para afastar a igreja da aliança com o poder político.
 
 
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