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Dessa maneira, a salvação seria uma graça que envolve a natureza humana, sem penetrá-la, e que a apresenta como justa ante Deus. Essa concepção difere da católica, segundo a qual a graça é conferida pelos sacramentos, entendidos não como novos intermediários entre Deus e os homens, mas como prolongamento da ação de Cristo que transforma internamente a natureza humana. Os protestantes sempre recusaram qualquer pretexto de mediação da igreja, até mesmo por meio dos sacramentos. Com base na natureza corrupta do homem, os protestantes negaram também a liberdade e deram maior ênfase à predestinação, devida somente à vontade de Deus, sem participação humana. João Calvino levou tal tese às últimas conseqüências lógicas ao afirmar a dupla predestinação -- para a salvação e para a condenação. Por sua vez, a idéia da predestinação trouxe consigo a ânsia de manifestar sinais da escolha divina, que tinham de ser pessoais e que foram postos no sentimento ou na prosperidade econômica. De acordo com a mesma linha de evitar a intromissão de uma hierarquia eclesiástica, o sacerdócio comum dos fiéis é o segundo ponto fundamental da doutrina protestante. Os reformadores insistiram no princípio bíblico de que Cristo é o único sacerdote, mediador ante o Pai, e que todo o povo incorporado a Cristo constitui o sacerdócio da nova lei. Os protestantes rejeitam, portanto, o sacerdócio ministerial, ou seja, negam um sacramento que torne sacerdotes determinados membros da comunidade. A radicalização dessa idéia levou diversas igrejas a substituir o regime episcopal pelo presbiteriano ou pelo congregacionista, que transferem a direção eclesiástica à comunidade. A única autoridade reconhecida pelos protestantes em matéria de fé e de costumes é a palavra de Deus, constante das Sagradas Escrituras. A palavra atua por seu contato pessoal mediante a ação do Espírito Santo, engendrando a fé, e com ela a salvação. Daí a importância da pregação da palavra de Deus, assim como da tradução da Bíblia para as línguas vernáculas, iniciada por Lutero, e da interpretação pessoal ou livre exame dos textos bíblicos. Com relação aos sacramentos, a uniformidade é menor. Em geral, os protestantes admitem como sacramentos o batismo e a ceia do Senhor (eucaristia), mas os consideram como sinais que estimulam a fé. Rejeitam, pois, a concepção católica de que os sacramentos conferem a graça por disposição divina e independentemente da atitude de quem os recebe. |
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