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Igreja Católica
A
Crise da cristandade 
          O ano de 1759, data da expulsão dos jesuítas, pode ser assinalado como o início simbólico da crise da cristandade, que durou até meados do século XIX. Duas causas podem ser indicadas como principais geradoras desse processo de desestabilização e desestruturação da cristandade colonial. A primeira, inerente à vida da própria metrópole lusitana, foi o esforço de modernização burguesa do reino, intentado pelo marquês de Pombal, que visava a diminuir o tradicional poder da nobreza e da Igreja Católica junto à coroa. Para incentivar a mudança de mentalidade, promoveu-se uma profunda reforma nos estudos, a começar pela Universidade de Coimbra. Desde então, passaram a ser incentivados os estudos das ciências físicas e naturais, diminuindo-se o domínio da tradicional filosofia escolástica aristotélico-tomista. A reforma pombalina tinha como meta enfraquecer o poder da aristocracia e do clero, os dois estamentos até então dominantes na sociedade lusitana. Em conseqüência dessa reforma, a intelectualidade brasileira, cujos estudos superiores se faziam na Europa, imbuiu-se da nova mentalidade iluminista. A perspectiva racionalista permitiu uma relativização maior do caráter sacral até então inerente à concepção de estado; abria-se dessa forma a possibilidade de uma posição crítica mais firme em relação à dominação colonialista. 
          A segunda causa da desestabilização da cristandade colonial foi a influência do pensamento liberal. À revelia da censura metropolitana, muitos brasileiros começaram a ter acesso às novas idéias que germinavam na Europa e nos Estados Unidos, cujo resultado prático foi a independência americana em 1776 e a revolução francesa em 1789, com a proclamação dos direitos do cidadão. Em conseqüência, iniciaram-se no Brasil diversas conspirações e movimentos insurgentes contra a metrópole, como a inconfidência mineira de 1789, a conjuração baiana de 1798 e a revolução pernambucana de 1817. Parte importante do clero urbano aderiu às concepções iluministas e liberais. O mentor intelectual do movimento mineiro foi o cônego Luís Vieira e ao padre João Ribeiro coube a elaboração do ideário da revolução pernambucana. Nesta, destacaram-se como líderes revolucionários os padres Roma e Miguelinho, bem como frei Caneca, principal promotor da Confederação do Equador em 1824, numa recusa à constituição outorgada por D. Pedro I, após o fechamento da Assembléia Constituinte de 1823. 
          Pode-se falar nesse período de um incipiente catolicismo iluminista, compartilhado por clérigos e leigos que integravam a sociedade urbana em formação. Uma das marcas da nova mentalidade religiosa era a perspectiva liberal, daí resultando a rejeição da dominação colonial e sua sacralização. Esses católicos, que faziam restrições às manifestações religiosas populares, vistas como expressão de ignorância cultural, distanciaram-se também do catolicismo oficial. Aderiram firmemente à causa da luta pela independência, propugnando inclusive uma constituição liberal para o país, à revelia do poder autoritário de D. Pedro I e do clero absolutista que o apoiava. 
          Com o objetivo de preservar as relações diplomáticas com Portugal, a Santa Sé relutou em reconhecer a independência do Brasil. Desenvolveu-se então, entre o clero liberal e iluminista uma insatisfação com o poder eclesiástico de Roma e uma aproximação  com a coroa imperial. O padre Diogo Feijó, regente do império, tornou-se símbolo dessa surpreendente aliança. Em vista da precariedade da observância do celibato eclesiástico, ele chegou mesmo a propor a abolição desse preceito no território nacional, indispondo-se com a Cúria Romana. Com a ascensão de D. Pedro II ao trono, porém, fortaleceu-se o partido conservador e o clero liberal perdeu o espaço que ocupara no cenário da vida brasileira.
 
 
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