A freqüente presença do
fenômeno milenar da bruxaria em culturas distantes de seu substrato
atesta a perpetuação de certas modalidades de funcionamento
do espírito humano. No entanto, inúmeros trabalhos etnológicos
ou históricos não lograram ainda dirimir todos os problemas
ligados a sua definição ou explicação.
Bruxaria consiste no exercício,
com intenção maligna, de pretensos poderes sobrenaturais
por meio de ritos mágicos e com o fim de causar malefício
a certas pessoas ou a seus bens, assim como benefícios diretos ou
indiretos a seus praticantes. O fenômeno existe desde os tempos pré-históricos
e faz parte dos procedimentos de numerosas crenças animistas. Aparece
já em Homero e na própria mitologia grega, em que a feiticeira
Medéia ocupa lugar de destaque no ciclo dos argonautas. Na literatura
latina, o tema despertou o interesse de vários autores, especialmente
Apuleio, Petrônio e Horácio.
No universo judeu-cristão, a
presença das bruxas verifica-se desde o Velho Testamento. Em um
momento crucial de sua vida, Saul consultou a feiticeira de Endor, embora
pela lei de Moisés a bruxaria fosse punida com a morte. No cristianismo
primitivo, conhecia-se a prática de ritos mágicos, mas os
apóstolos consideravam-na fruto de ardis do demônio, pois
entendiam que somente Deus dispunha de poderes sobrenaturais.
A cozinha das bruxas, óleo
sobre madeira (1610), do pintor flamengo Hieronymus Fracken o Velho (Museu
de História da Arte, Viena)