Jesus Cristo
Igreja Católica
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Cristianismo
Revista IstoÉ número 1629
Por Osmar Freitas Jr.
A divindade feito homem
Como o pão, massa que toma a forma e a consistência
de quem a manipula, Jesus Cristo moldou-se ao imaginário dos povos
e se tornou a figura mais importante da história da humanidade
O Seminário de Jesus é
uma organização internacional, centrada nos Estados Unidos,
que reúne cerca de uma centena de acadêmicos e estudiosos
da Bíblia. Em debates frenéticos, o grupo procura atestar
a veracidade do que foi escrito nos evangelhos do Novo Testamento sobre
a vida e as palavras de Jesus. Funciona, portanto, como uma espécie
de cartório, onde se autenticam documentos. São implacáveis
nesta função. Enfurecendo cristãos de todas as correntes,
os membros do seminário já classificaram de falsas passagens
como a Natividade, a Ressurreição, o Sermão da Montanha,
a traição de Judas Iscariotes e boa parte das máximas
atribuídas a Cristo. Mas nem mesmo esta brigada de agnósticos
põe em dúvida o fato de que o profeta de Nazaré comparou
o vinho a seu sangue e o pão a seu corpo. Essa metáfora,
reconheça-se, tem propriedades particularmente primorosas. Não
apenas serve à liturgia cristã, como também ajuda
a explicar a longevidade e resistência de uma figura que, em circunstâncias
normais, teria sido relegada ao pó há muito tempo. É
assombroso que um carpinteiro dos confins do Império Romano tenha
se transformado na pessoa mais importante e influente da história
da humanidade. Jesus Cristo é o pão: a massa que toma a forma
e consistência desejada por quem a manipula. Molda-se ao imaginário
de cada um para preencher necessidades. Este é o mistério
de sua permanência na vida dos homens e o milagre de sua multiplicação.
Assim como na Ressurreição,
Cristo extrapolou os limites exteriores da matéria e ganhou, na
crença dos homens, várias configurações. São
feitios distintos que competem entre si. O Cristo cultuado hoje já
foi em outros tempos, por exemplo, a divindade tripartite da barroca mitologia
maniqueísta, que postou um de seus três Jesus, cheio de esplendor,
vivendo na Lua. É bom lembrar, para aqueles que acham maluca esta
concepção, que Santo Agostinho, um dos maiores filósofos
da Igreja Católica, acreditava piamente nesta versão antes
de abandonar o maniqueísmo e se converter ao cristianismo. A filosofia
maniqueísta, que propunha a eterna luta entre as forças da
luz e da escuridão, foi inspirada por Manu – um cristão da
Mesopotâmia do terceiro século. Seus adeptos se espalharam
do Norte da África ao Sul da China. Na Ásia Central, por
exemplo, Jesus foi imortalizado ao fundir-se com a deidade budista Maitreya,
numa metamorfose que gerou o futuro Budhisatva – que, igual a Cristo, voltará
no final dos tempos. Essa figura entusiasmou os chineses a ponto de provocar
a rebelião que derrubou o poderoso Kublai Khan, no século
XIV. A dinastia resultante – talvez a mais famosa da China – dedicou seu
nome, Ming, a seus soldados da “Luz” – como eram conhecidos os devotos
da seita Ming-chiao, seguidores desta espécie de Cristo budista.
E a luminosa dinastia Ming, centenas de anos depois, serviria de inspiração
aos filósofos europeus do Iluminismo, com suas idéias seculares
que questionavam os ensinamentos de Cristo. Neste caso, Deus escreveu certo
por linhas tortas: Jesus está no coração dos incréus
iluministas.
No entanto, a gênese de toda esta
influência é uma figura da qual se tem escassas provas sobre
a autenticidade de sua existência real, para além da fé.
“Não há confirmação irrefutável de que
o homem Jesus tenha vivido”, diz Robert Funk, teólogo da Universidade
de Montana e um dos bravos acadêmicos do Seminário de Jesus.
“Existem argumentos propondo que Jesus é a somatória de várias
personagens, ou que sua pessoa possa ter sido inflada até chegar
à condição de mito”, diz. De fato, é preciso
se entregar a uma formidável devoção ao fundamentalismo
para se acreditar piamente no que a Bíblia contém sobre o
assunto. As Escrituras são contraditórias e incompletas.
Na verdade, mais simbólicas do que documentais.
| Evangelhos – De todo modo, desde o século
III, a história de Jesus se baseia principalmente nos quatro textos
canônicos que constam do Novo Testamento. Os Evangelhos de
Marcos, Mateus, Lucas e João, escritos em grego, são relatos
de quem supostamente teria conhecido Jesus pessoalmente. Em 1945, seriam
descobertos no Egito os manuscritos Nag Hammadi, que contêm um segmento
que é chamado Escrituras de Tomás. O texto é desprovido
de narrativa biográfica de Jesus, mas forma uma coleção
de máximas e pensamentos do profeta. Passou a ser, desde então,
considerado como o quinto Evangelho. Além destes, existem outros
textos cristãos que falam de Jesus, sendo o mais importante as Epístolas
de São Paulo. E entre todos há passagens contraditórias.
Para tornar ainda mais nebuloso o perfil do Cristo, estas páginas
foram modificadas em traduções e interpretações.
O resultado disso é a polêmica. A própria divisão
da Bíblia em Velho e Novo Testamento é fruto de ferozes debates,
ocorridos no início da era cristã, sobre a natureza de Jesus. |
Cristo de São
João da Cruz/Salvador Dali/ óleo sobre tela (205x116cm)/
Glascow Art Gallery
São João da Cruz inspirou Salvador Dalí |
A crucificação/c.
1580/ El Greco/óleo sobre tela / Museu do Louvre
A expressão de sofrimento do Cristo de El Greco
dá dimensão humana a Jesus |
As disputas sobre a história
de Cristo vão fincar raízes em eventos que antecedem seu
nascimento. A própria concepção – um dos dogmas do
cristianismo – é colocada em dúvida. Várias correntes
de pensadores acreditam que Maria gerou um filho ilegítimo. “É
claro que não há provas sobre isso”, diz o teólogo
americano James Strange, do Seminário de Jesus. “Há muito
tempo foram lançadas suspeitas de que a história da concepção
de Maria, sem um marido, seria apenas um recurso para encobrir um romance
espúrio. Surgiram depois textos apócrifos propondo uma relação
de Maria com um legionário romano de nome Panthera. Em alguns textos
judaicos, Jesus é até chamado de mamzer, que significa ‘filho
da fornicação’, ou seja: um bastardo. Mas esses são
textos polêmicos que emergiram somente depois do divórcio
entre judaísmo e cristianismo. Parece que visam apenas desmistificar
um dos maiores dogmas do cristianismo”, diz Strange.
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Mas as virtudes da Virgem não são
moldadas apenas por detratores. A própria Igreja Católica
complicou a questão quando, séculos depois do nascimento
de Cristo, resolveu perpetuar a virgindade de Maria. Assim, ela teria subido
aos céus sem ter tido relações sexuais e, portanto,
Jesus seria seu único filho. Mas em Marcos 6:3 são dados
nomes de irmãos de Jesus e há menções até
mesmo de irmãs. Um dos irmãos – e o mais importante – seria
Tiago, que liderou a comunidade cristã de Jerusalém. É
importante notar que o Evangelho de Marcos é considerado o primeiro,
sendo que os de Mateus e Lucas seriam revisões deste texto (as três
versões são chamadas “sinóticas”). “Os teólogos
datam as escritas do Novo Testamento no último quarto do primeiro
século. Algo em torno de 40 anos depois da morte de Jesus. Imagina-se
que Marcos escreveu logo depois da queda de Jerusalém, no ano 70”,
diz Strange. Já o Evangelho de João é considerado
obra do final do século I ou início do século II.
A figura de Cristo sempre exerceu um poderoso fascínio
sobre os artistas,fossem eles realistas, barrocos ou expressionistas
Jesus a.C. – Um dos pontos onde parece que todos concordam é
que Jesus nasceu no ano 4 antes de Cristo. A discrepância desta data
se deve ao famoso erro na elaboração do calendário,
feito por um monge no século VI. Nem todos, porém, aceitam
a idéia de que o profeta é de Belém. “Há controvérsias:
alguns estudiosos acham que Jesus nasceu em Nazaré. Alegam que o
nome Nazareno não se deve ao fato de Jesus ter morado boa parte
de sua vida na cidade de Nazaré, mas, sim, por ter nascido naquele
local”, diz o padre Luke Timothy Johnson, um expert em Novo Testamento,
professor da Emory University. “O mais aceito é que Maria, grávida,
e José teriam ido a Belém para cumprir um edital de Roma
e se inscrever no censo local. Não conseguiram pousada e a criança
nasceu numa caverna que servia de estábulo nos arredores da cidade”,
diz o professor Johnson. Somente Mateus (2:13-23) descreve uma fuga da
sagrada família para o Egito para escapar do infanticídio
ordenado por Herodes, o rei da Judéia. “Mateus usou um mosaico de
lendas para compor este quadro. Os paralelos entre o recém-nascido
Jesus e o infante Moisés são inegáveis, com Herodes
cumprindo o papel do déspota amedrontado com o surgimento de outro
rei, da mesma forma que o faraó Seti na história de Moisés”,
diz o teólogo John Dominic Crossan, membro do Seminário de
Jesus.
Os biógrafos da antiguidade geralmente
começavam seus textos a partir da vida pública dos protagonistas
que perfilavam. O que fosse anterior aos eventos públicos era deixado
de lado. Assim, também no caso de Jesus, seus biógrafos dão
ênfase às atividades públicas. Mateus e Lucas, por
exemplo, falam da infância de Jesus apenas como prefácio da
narrativa principal. Em Mateus a história começa mesmo com
o Sermão da Montanha, com um Cristo já adulto. Esta é
uma das razões do “desaparecimento” de Jesus da idade de 12 anos
até os 29.
Desse modo, fica muito difícil
retratar o garoto Jesus. Existem textos esparsos creditados a São
Pedro e São Paulo – e considerados mera ficção –,
que falam de um menino travesso, cheio de humor e predisposto a brincadeiras
um tanto perigosas. O que se dá como certo é que o nome Jesus
(Yeshu) é uma abreviatura que deriva da interpretação
grega do nome hebreu “Yoshua”, que por sua vez é uma corruptela
de “Yehoshuah” (que significa Jeová é Redenção).
Já Cristo não era nome, mas um título. Vem do grego
Christós, e é uma tradução do hebraico Mashiakh
(O Escolhido), ou Messias. Cristo foi agregado ao nome de Jesus por seus
seguidores que acreditavam ser ele o Messias da salvação
de Israel. O título foi definitivamente incorporado ao nome de Jesus
por decisão da Igreja.
Assim como esta decisão da Igreja,
outros acréscimos foram sendo feitos na vida de Cristo. “A rigor,
a história de Jesus deveria ser formada apenas pelos quatro Evangelhos,
mais as escrituras de Tomás. Elas são como peças de
um quebra-cabeça incompleto, que não mostra o quadro todo,
mas delimita com alguma clareza a figura principal da composição”,
diz o padre Johnson. “Acredite-se ou não nesta história,
nos milagres, nos ensinamentos, nas passagens relatadas nas escrituras,
o que me parece importante é não perder de vista que apenas
aquilo que está nos Evangelhos pode ser tomado como fonte sobre
a vida de Cristo. Tudo mais são improvisações sobre
o tema e especulações que obedecem a interesses políticos”,
diz.
Sob esta ótica, os debates sobre
a existência ou não de Jesus acabam por se transformar em
uma questão meramente acadêmica. “Nós o pensamos, logo
ele existe”, como diz o padre Johnson. Nos atos mais cotidianos – como
consultar um calendário para se saber que dia é hoje –, passando
pela irresistível expansão da cultura ocidental pelo mundo
até o fato de pelo menos 1,9 bilhão de pessoas acreditarem
numa ética forjada por este homem extraordinário, está
a prova de que Jesus Cristo existiu e existe. Como o pão, ele faz
parte da história da humanidade.
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